Os custos com a alimentação representam a maior parte do custo total da produção de leite. Os concentrados correspondem a 2/3 do total desse custo com alimentação, enquanto os volumosos representam 1/3.
Contudo, se for ofertado um volumoso de boa qualidade, haverá um impacto no custo com concentrado, reduzindo-o; assim como fatores de ambiência e conforto térmico também interferem diretamente na eficiência alimentar do rebanho leiteiro, especialmente em sistemas como o compost barn.
Por isso, atualmente a silagem é um dos principais componentes da dieta de bovinos.
Neste texto te contaremos o passo a passo para garantir a melhor qualidade na produção da sua silagem.

O que é silagem?
Silagem é um material produzido pela fermentação controlada de uma forragem.
A criação de um ambiente de anaerobiose favorável para fermentação e produção de ácido lático resulta na queda do pH e garante, assim, a conservação do material e a inibição do crescimento de bactérias.
Muitas pessoas pensam que o processo de ensilagem melhora o valor nutritivo da forragem conservada em relação àquela que a originou. MAS ISSO NÃO É VERDADE!
O objetivo da ensilagem é conservar o valor nutritivo inicial da forrageira.
Por isso, para ter uma silagem de boa qualidade, você precisa ensilar material de boa qualidade e fazer as etapas corretamente.
Por que produzir silagem?
Dentre as vantagens da produção de silagem, podemos citar:
- Fonte segura de volumosos
- Pode representar economia de concentrados
- As operações podem ser mecanizadas
- Pode conservar alimentos por longos períodos
- Permite aumentar número de animais
- Custo de maquinário mais baixo que de um conjunto de fenação
Tipos de silagem
Nem toda silagem é feita com a mesma forrageira, e essa escolha impacta diretamente o valor nutritivo, o custo de produção e a adaptação à realidade de cada propriedade. Conheça os tipos mais utilizados:
Silagem de milho
É o tipo mais comum e mais utilizado nas propriedades leiteiras e de confinamento. Isso acontece porque o milho tem alta produtividade por hectare e um bom equilíbrio entre energia e fibra, o que favorece a fermentação e resulta em uma silagem de alta qualidade nutricional.
Silagem de sorgo
O sorgo se destaca por se desenvolver bem em solos menos férteis e por ter menor custo de produção em relação ao milho. Em média, apresenta entre 70% e 90% do valor nutritivo da silagem de milho. Por outro lado, seus grãos são mais difíceis de triturar, o que pode reduzir o aproveitamento energético caso o maquinário não esteja bem regulado.
Silagem de capim (capiaçu e outras gramíneas)
Indicada principalmente para propriedades que já trabalham com pastagem e querem uma alternativa de menor custo de implantação. Como o teor de matéria seca das gramíneas tropicais costuma ser mais baixo, exige atenção redobrada ao ponto de colheita para evitar fermentação indesejada.
Silagem pré-secada (alfafa e outras leguminosas)
Nesse processo, a forragem é cortada e passa por um período de pré-secagem a campo antes de ser ensilada, elevando o teor de matéria seca. É uma boa opção para quem busca um volumoso com maior teor de proteína, mas demanda mais controle climático durante a colheita.
Como escolher: a definição do tipo ideal depende da disponibilidade de área, do clima da região, do custo de implantação e da categoria animal que vai consumir a silagem. Por isso, o acompanhamento técnico é importante já na fase de planejamento da forrageira.
Etapas da ensilagem
O processo de ensilagem passa por etapas que exigem muita dedicação para garantir um bom resultado.
- Plantio: Esta etapa vai do preparo do solo até a escolha do cultivar a ser usado
- Colheita: Saber o momento ideal para colher é o ponto determinante nessa etapa, pois não pode estar muito seco e nem muito úmido.
- Abastecimento e compactação: Estar atento à forma de distribuição no silo e à compactação.
- Vedação: É um ponto chave para garantir a anaerobiose e evitar a deterioração da forragem
- Desabastecimento: Este é o momento em que a silagem passa a ter contato com o ar, desencadeando a deterioração
Falaremos de todas essas etapas detalhadamente a seguir, mas antes vou te explicar um pouquinho mais sobre o processo de fermentação que ocorre durante o processo de ensilagem.
Fases do processo de fermentação da silagem
A produção da silagem passa por 4 fases divididas de acordo com o momento da fermentação do material após a vedação: Fase aeróbica, fase anaeróbica, fase de estabilidade e a abertura do silo.

Fase 1: Aeróbica
Esta fase inclui as etapas de colheita até a vedação.
O que ocorre:
- O2 + enzimas respiratórias → agindo sobre açúcares → CO2 + calor
- Proteases das plantas → agindo sobre proteínas → N solúvel (NNP)
Fase 2: Anaeróbica
Nessa fase há a queda do pH da massa ensilada.
O que ocorre:
- Bactérias láticas homofermentativas → agindo sobre açúcares → ácido lático
- Bactérias láticas heterofermentativas → agindo sobre açúcares → ácido lático + ácido acético
- Enterobactérias → agindo sobre açúcares → ácido lático + ácido acético + etc
- Clostrídios → agindo sobre açúcares, ácido lático, aminoácidos → ácido butírico + etc
Fase 3: Estabilidade
É quando ocorre a estabilização do pH da massa ensilada e a redução da atividade microbiana.
Com todo esse processo entendido, vamos agora ao passo a passo de cada etapa para a produção de silagem de qualidade.
Dúvidas comuns sobre silagem
Uma dúvida comum entre quem está começando é se a silagem pode fazer mal para o gado. Quando produzida seguindo as etapas corretas, a silagem é segura e nutritiva. O risco existe principalmente quando há falhas na vedação ou na compactação, que permitem a proliferação de fungos e a produção de micotoxinas, prejudiciais à saúde animal.
Outra pergunta frequente é qual a diferença entre silagem e feno. Enquanto a silagem é conservada por fermentação em ambiente sem oxigênio, o feno é conservado pela secagem da forragem até um teor de umidade muito baixo. Ambos são formas de armazenar volumoso, mas exigem processos, estruturas e cuidados diferentes.
Também é comum surgir a dúvida sobre quanto tempo a silagem dura depois de aberta. Uma vez aberto, o silo entra em contato com o ar e a deterioração começa a acontecer de forma gradual. Por isso a recomendação de retirada mínima de 30 cm por dia, justamente para que o consumo aconteça antes que a fermentação indesejada se instale na face exposta.
Por fim, muitos produtores perguntam se é possível fazer silagem em pequenas propriedades. Sim, é possível. Existem alternativas como o silo em tambor ou em sacos, que dispensam maquinário de grande porte e adequam a escala de produção à realidade do pequeno produtor, sem abrir mão dos princípios básicos de compactação e vedação.
1. Plantio
A escolha da forrageira adequada é muito importante para a qualidade da sua silagem.
Alguns pontos devem ser considerados:
- Deve ter bom valor nutritivo
- Adequar às exigências dos animais
- Alta produtividade, pois irá diluir custo
- Adaptação às condições edafoclimáticas, ou seja, onde tem zoneamento agrícola para plantar qual cultura e qual cultivar esteja mais adaptado à região
Além disso, os cuidados culturais são de extrema importância para uma boa produção, sendo necessário estar atento às seguintes condições:
- Correção do solo
- Adubação equilibrada de acordo com a necessidade da cultura
- Profundidade de plantio
- Controle de quantidade de sementes
- Controle de plantas daninhas
- Controle de pragas, como formigas, lagartas e alguns fungos
2. Colheita
Por que a colheita é uma etapa crítica
O processo da colheita tem impacto na compactação, fermentação, no consumo e desempenho das vacas, além de definir os custos operacionais.
Tipo de maquinário para a colheita
Escolher o maquinário é o primeiro passo para essa etapa da produção de silagem. As colhedoras tracionadas por trator são maquinários mais simples e muito presente em pequenas e médias propriedades.Este equipamento tem como vantagem o seu baixo preço, com manutenção simples. Como desvantagem, podemos citar a limitação de ajustes.
Colhedoras autopropelidas
Já as colhedoras autopropelidas não dependem da ação de outro equipamento, sendo muito mais tecnológicas. Elas têm como vantagem um processamento com maior precisão e mais velocidade, porém tem um valor mais alto.

Ponto de colheita
O grande desafio desta etapa é saber reconhecer o ponto correto para colher.
O teor de matéria seca deve estar entre 30 e 35%, pois nessa condição há o favorecimento do crescimento de bactérias láctica.
Se a colheita for feita com a matéria seca menor do que 30%, como consequência, há uma compactação excessiva, um favorecimento do crescimento de Clostridium, ocorre lixiviação (lavagem) e fermentação butírica, apodrecendo a silagem.
Por outro lado, no caso da colheita feita com o teor de matéria seca maior do que 38%, a compactação não será efetiva, formando um ambiente aeróbio que predispõe o crescimento de fungos. Além disso, ocorrerá um aumento de temperatura, resultando no que chamamos de Reação de Maillard.
Altura de corte
A parte inferior das hastes das plantas é menos digestível e contribui para a redução da qualidade da forragem como um todo, além do fato do corte muito baixo haverá maior contaminação por clostridium devido ao contato com o solo.
Porém, se o corte for feito muito alto haverá uma menor produção. Apesar disso, essa pode ser uma estratégia para obter um aumento na concentração energética e redução no teor da Fibra em Detergente Neutro (FDN) na silagem.
Então, para determinar qual a altura de corte ideal para a sua propriedade, você precisará analisar suas necessidades e optar por priorizar uma maior produção (corte mais baixo) ou maior qualidade (corte mais alto).
Tamanho de partícula
Nessa etapa, o tamanho de partícula refere-se ao tamanho em que a planta será picada pelo maquinário responsável por esse processo.
Por isso, ter um tamanho adequado da forragem é fundamental a ruminação e produção de saliva, garantindo um bom ambiente ruminal, ajudando no controle do pH e viabilizando a ação dos microrganismos.
Por outro lado, numa situação em que o corte seja muito pequeno, os grãos serão menos quebrados e reduzirá o aproveitamento dessa silagem e o consumo.
Já numa situação em que o corte seja muito pequeno, ocorrerá uma super compactação da silagem.
Para resolver isso, uma ferramenta muito utilizada para adequar os teores de fibra da dieta de vacas leiteiras é o “Penn State”, um conjunto de peneira com objetivo de separar as partículas de acordo com o seu tamanho.

Na tabela abaixo podemos conferir um exemplo dos valores recomendados de separação das partículas para silagem de milho, pré-secado e dieta total misturada

Como podemos interpretar da tabela, a peneira de 8 mm (intermediária) deve ser a com maior retenção de partículas.
Isso porque o que está abaixo deste tamanho não promove a mastigação, além de resultar em inadequações de compactação.
3. Abastecimento e compactação
Nesta etapa, o objetivo é, portanto, a retirada total de ar para a fermentação que irá conservar o alimento.
Saiba mais: Quais são os Tipos de Silos
Assim, o objetivo é obter uma densidade elevada, de aproximadamente 700kg/m3, pois dessa forma teremos um menor custo com a estocagem dessa silagem, os processos de fermentação serão favorecidos e haverá redução na porosidade e presença de ar.
Vários fatores interferem nessa densidade desejada, como a concentração de matéria seca, o peso do trator (pneus que aplicam um maior peso por unidade de superfície), a camada que será distribuída no silo e o tamanho de partícula do material.
A compactação deve ser feita com a melhor qualidade, no menor tempo possível, de forma intensa e contínua.

4. Vedação
Com a vedação adequada da forragem nós queremos garantir que não haverá a penetração do ar do ambiente externo no interior do silo. Para isso, utilize lonas (lâminas de polietileno) e adiciona-se pesos sobre ela.
Além disso, é importante ficar atento a qualidade da lona, pois quanto mais fina, maior o risco de perdas da silagem.
Um outro ponto de atenção é o uso de cercas no entorno dos silos, para evitar a aproximação de animais que podem furar a lona.
5. Desabastecimento
Esta é uma etapa de grande importância, visto que será o momento em que a silagem terá contato com o ar novamente e sairá do seu ambiente de anaerobiose e estabilidade.
Para reduzir a área que entrará em contato com o ar, a face de retirada do silo deve ser mantida plana e perpendicular ao solo e laterais.
Por isso, o recomendado é que se tire no mínimo 30 cm por dia após a exposição ao ar, pois é o quanto estima-se que haja de penetração de ar na massa ensilada. Por isso, dimensione os silos para essa retirada mínima
Uma estratégia utilizada é calcular a taxa de retirada de silagem, relacionando a quantidade de silagem que se utiliza por dia em relação à área do painel (largura x altura).
Erros comuns na produção de silagem
Mesmo seguindo as etapas corretamente, alguns erros continuam sendo recorrentes nas propriedades e comprometem a qualidade final da silagem. Veja os principais e como evitá-los:
Colher fora do ponto ideal de matéria seca. Colher com a forrageira muito úmida ou muito seca é, de longe, o erro mais frequente e o que mais compromete a fermentação, já que altera diretamente o ambiente de anaerobiose necessário para a produção de ácido lático.
Compactação insuficiente. Quando a compactação não atinge a densidade recomendada, sobra ar dentro da massa ensilada. Como consequência, cresce o risco de fungos e de perdas por deterioração aeróbica, especialmente nas primeiras camadas do silo.
Vedação malfeita ou com lona de baixa qualidade. Furos na lona, ainda que pequenos, permitem a entrada de ar e comprometem toda a área ao redor do ponto de falha. Por isso, a inspeção periódica da vedação é essencial durante todo o período de armazenamento.
Retirada acima do recomendado por dia. Retirar menos do que os 30 cm diários recomendados expõe a silagem ao ar por mais tempo do que o ideal, acelerando a deterioração na face do silo e reduzindo o aproveitamento do material.
Sinais de que a silagem não está com boa qualidade: cheiro forte de amônia ou rançoso, presença de mofo visível, coloração escura ou enegrecida e temperatura elevada ao toque são indícios de fermentação inadequada. Nesses casos, o ideal é descartar a porção afetada para não comprometer o desempenho e a saúde do rebanho.
Acompanhar de perto a qualidade do volumoso ofertado é parte da gestão nutricional do rebanho, e ferramentas como o FarmTell® Milk ajudam o produtor a monitorar esses indicadores de forma integrada.
Conheça FarmTell® Consultoria Online e descubra como transformar dados em decisões mais assertivas para aumentar a eficiência, os resultados e a rentabilidade da sua fazenda.





0 comentários