Categoria: Gado de Leite

Free Stall: saiba tudo sobre o sistema

Data: 25/04/22

Autoria: <b>Marcelo Saldanha</b><span class="linkedin"></span>

Autoria: Marcelo Saldanha

sistema free stall

O free stall é um modelo de instalação que permite alta densidade de animais em um ambiente confortável, sem abrir mão do bem-estar do rebanho. Por isso, ele se tornou uma das opções mais adotadas por fazendas leiteiras que buscam ganhar escala sem perder produtividade por vaca.

Segundo dados técnicos da Embrapa, o modelo é recomendado para rebanhos acima de 60 vacas em lactação, já que a estrutura de baias individuais reduz a área de repouso necessária e diminui bastante a quantidade de cama usada em comparação com sistemas de repouso coletivo. Na prática, isso significa menos custo operacional e vacas mais limpas ao longo do dia.

Antes de construir um free stall, no entanto, é necessário refletir sobre alguns pontos decisivos para avaliar a viabilidade do projeto. Por isso, o free stall só entrega resultado quando o manejo do rebanho acompanha a estrutura. Baixe o e-book Manejo de vacas leiteiras e veja como conduzir essa rotina.

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1. Visão de longo prazo

O investimento na construção desta instalação é alto e agrega bastante valor ao sistema produtivo. Por isso, a fazenda deve planejar esse investimento com um horizonte de 30 a 40 anos, considerando a evolução do rebanho ano a ano e mantendo controle financeiro rigoroso do negócio.

2. Objetivo definido e claro

Antes de iniciar a obra, a equipe da fazenda precisa entender qual objetivo pretende alcançar com a instalação, já que se trata de um investimento alto e com durabilidade de muitos anos. Dessa forma, o free stall se torna um aliado direto no plano de lucrar mais com a fazenda, reduzindo custos e melhorando a produtividade do rebanho.

3. Planejamento do manejo

O desenho completo do manejo da fazenda é ponto fundamental para o sucesso do free stall. Assim, cada categoria de animal deve receber manejo de acordo com sua necessidade específica. Para garantir a maior produtividade possível, a fazenda precisa planejar, ainda no início do projeto, a divisão de lotes, o tratamento de dejetos e as formas de reduzir custos.

Vantagens e desvantagens do free stall

Antes de comparar modelos de baia ou tipos de piso, vale entender por que tantas fazendas escolhem o free stall em vez de outros sistemas de confinamento, como o compost barn ou o tie stall.

Principais vantagens:

  • Menor área coberta necessária por animal, o que reduz o custo de construção por vaca alojada
  • Vacas mais limpas, já que cada animal tem sua própria baia de descanso
  • Melhor controle sanitário, porque a fazenda consegue isolar e monitorar lotes com mais facilidade
  • Alta densidade populacional sem comprometer o conforto, quando o dimensionamento é feito corretamente

Principais desvantagens:

  • Investimento inicial elevado, especialmente em estruturas metálicas
  • Exige manejo técnico constante, já que baias mal dimensionadas geram lesões e queda de produção
  • Depende de manutenção frequente de camas, pisos e sistemas de limpeza

Por isso, a decisão entre free stall, compost barn ou loose housing deve considerar o tamanho do rebanho, a disponibilidade de mão de obra e o capital disponível para investimento. Se esse comparativo for o seu principal desafio agora, vale a leitura complementar sobre compost barn, que costuma ser a alternativa mais indicada para propriedades menores ou com orçamento mais restrito.

Projeto free stall: como montar as baias

Existem 3 formas de construir esse tipo de instalação:

  • Cama dupla, cabeça com cabeça
  • Cama dupla, traseiro com traseiro
  • Cama tripla

Qualquer um dos 3 modelos pode trazer ótimos resultados, desde que a fazenda os execute da forma correta.

Cama dupla, cabeça com cabeça

Nesse modelo, a instalação conta com um corredor na pista de alimentação e outro corredor externo. Uma desvantagem desse arranjo, porém, é que as vacas costumam preferir as camas mais internas, próximas à pista de alimentação, o que gera disputa por espaço.

free stall modelo cabeça com cabeça, com corredor de alimentação e corredor externo
Foto: Feilfer

Cama dupla, traseiro com traseiro

Nesse modelo, o corredor externo fica no centro, entre as duas fileiras de cama. Como consequência, as vacas precisam sair da pista de alimentação por uma das extremidades para chegar ao corredor central e escolher a cama. Esse trajeto reduz a chance de disputa por baias específicas, o que deixa a taxa de ocupação das camas mais homogênea, quando comparada ao modelo cabeça com cabeça.

free stall modelo traseiro com traseiro, com corredor central entre as camas
Foto: Educapoint

Terreno e declividade na construção do free stall

Para o posicionamento ideal do free stall, é importante priorizar áreas mais altas, já que isso facilita o escoamento de dejetos. Já em relação à orientação do barracão, a recomendação técnica é a direção leste-oeste, o que garante que o sol não incida diretamente sobre os animais.

Quanto à declividade da construção, a recomendação é de 1% a 3%, variando de acordo com o sistema de lavagem escolhido pela fazenda.

Veja também: Compost Barn: o que é, manejo e como fazer em pequenas propriedades

Telhados e pé-direito do free stall

No Brasil, a construção do free stall normalmente utiliza estruturas de concreto ou metálicas, sendo o concreto o material mais usado por ter custo menor. Já em relação ao pé-direito, ou seja, o primeiro pilar da construção, ele deve acompanhar o alinhamento do terreno e a altura do barracão. Em geral, esse pilar tem entre 4 e 4,2 metros de altura, embora essa medida varie conforme a estrutura do telhado.

Outro elemento importante é o pilar central, ou intermediário, que a fazenda pode posicionar de duas formas: no alinhamento das camas ou junto ao cocho. Já a declividade recomendada para o telhado fica entre 20% e 50%, o que facilita a saída do ar quente do galpão.

estrutura de telhado e pé-direito de galpão de free stall
Foto: Gado Holandês

Ventilação, aspersão e iluminação no free stall

Um dos pontos que mais separa um free stall eficiente de um projeto mal planejado é o controle do ambiente térmico. Como as vacas leiteiras têm metabolismo intenso, elas sofrem mais com o calor do clima brasileiro, o que reduz consumo de matéria seca e produção de leite.

Por isso, além da orientação leste-oeste e da declividade adequada do telhado, a fazenda deve considerar:

  • Ventiladores posicionados sobre a área de alimentação e sobre as camas, para acelerar a troca de ar
  • Aspersores para resfriamento evaporativo, geralmente combinados com ventilação forçada
  • Iluminação artificial complementar, já que fazendas que adotam fotoperíodo de cerca de 16 horas de luz e 8 horas de escuridão costumam registrar ganhos na produção de leite

Esses três elementos trabalham juntos: de nada adianta investir em ventiladores se a iluminação e a orientação do galpão não estiverem alinhadas ao mesmo objetivo, que é manter o animal em conforto térmico durante o maior tempo possível do dia. Para aprofundar esse tema, veja também o artigo sobre aspersão e ventilação na pecuária leiteira.

Pisos do free stall

Na etapa de construção do piso, o mais importante é garantir boa aderência, para evitar escorregões e dar segurança aos animais. Além disso, o piso precisa ter boa resistência, durabilidade, estabilidade e pouca aspereza, já que pisos muito ásperos aumentam o risco de problemas de casco.

Um detalhe que faz diferença são os frisos ao longo de toda a extensão dos corredores, pois eles aumentam a segurança das vacas. Por isso, a recomendação técnica é posicionar os frisos a cada 5 a 7 cm.

piso de free stall com frisos de segurança para os animais
Foto: http://www.pisofreestall.com.br/

Corredores do free stall

O corredor mais importante do free stall é o da pista de trato, já que é onde ocorre o maior trânsito de animais durante o dia. Por isso, esse corredor precisa ser o mais largo e o melhor posicionado de toda a instalação.

A largura ideal do corredor da pista de trato deve permitir que alguns animais comam enquanto outros transitam ao mesmo tempo. Assim, a recomendação técnica indica entre 4 e 4,5 metros para o corredor entre a pista de trato e as camas. Já o corredor lateral, ou externo, deve ter entre 3 e 3,5 metros.

Além desses dois, a fazenda também precisa construir o corredor transversal, posicionado a cada 20 camas e com altura entre 15 e 20 cm.

Camas do free stall: dimensionamento e tipos de material

Antes de construir a cama, é preciso ter um objetivo claro: manter as vacas deitadas na maior parte do tempo possível, já que o tempo de descanso está diretamente ligado à produção de leite. Por isso, a largura e o comprimento da cama precisam garantir conforto real ao animal.

O comprimento é medido da parede externa até o centro da cama e varia de acordo com o tamanho das vacas do rebanho. Em geral, a recomendação é de 2,6 m de comprimento e entre 1,1 e 1,3 m de largura, com parede de 15 a 20 cm de altura. Segundo referências técnicas da Embrapa, a área de repouso recomendada por animal no free stall gira em torno de 2,80 m², o que já considera o espaço da própria baia mais a área de circulação.

Tipos de cama

Os materiais usados nas camas podem ser orgânicos ou inorgânicos. No Brasil, as camas orgânicas costumam usar casca de café, palha, feno e outros resíduos vegetais. Esse material, porém, exige mais cuidado e manutenção para manter a limpeza da área e evitar a proliferação de microrganismos.

Já as camas inorgânicas, no Brasil, costumam usar areia, gesso, cal ou borracha. As camas de areia são as preferidas pelos animais, já que oferecem mais conforto, embora exijam mais atenção na remoção dos dejetos.

Bebedouros: água de qualidade no free stall

Muitos projetos de free stall priorizam cama, piso e corredor, mas deixam o posicionamento dos bebedouros em segundo plano. Isso é um erro, porque o consumo de água tem relação direta com o consumo de matéria seca e, consequentemente, com a produção de leite.

Por isso, a fazenda deve distribuir os bebedouros próximos à saída da sala de ordenha e ao longo dos corredores de alimentação, garantindo que nenhuma vaca precise caminhar muito para beber água. Além disso, a limpeza frequente dos bebedouros evita contaminação e reduz o risco de doenças no rebanho.

Custo de implantação e viabilidade do free stall

Como já foi dito no início deste artigo, a construção de um free stall exige investimento alto e retorno de longo prazo. Por isso, antes de aprovar o projeto, a fazenda precisa considerar:

  • Custo por baia, incluindo estrutura, piso, cama e cocho
  • Custo de manutenção do sistema de limpeza escolhido
  • Ganho esperado em produtividade por vaca, para calcular o prazo de retorno do investimento
  • Escala do rebanho, já que o free stall costuma se pagar melhor em fazendas com plantel maior

Esse cálculo deve considerar não só o investimento inicial, mas também o custo operacional ao longo dos anos, já que mão de obra, energia e manutenção seguem pesando no orçamento durante toda a vida útil da instalação.

Sistemas de limpeza do free stall

O free stall conta com vários sistemas de limpeza, divididos em dois grupos: sistemas de raspagem e sistemas de lavagem.

Sistemas de raspagem  

Esse é o método mais simples de aplicar e apresenta grande versatilidade na forma como cada fazenda executa a raspagem. Na maioria dos casos, a fazenda usa o trator com auxílio de lâminas.

Sistema de lavagem

Antigamente, a principal desvantagem apontada nesse sistema era o alto consumo de água. Hoje, porém, muitas fazendas já usam água de reciclagem, o que reduz bastante esse consumo.

Sistema com Flushing

Esse modelo vem ganhando espaço nas fazendas por ser mais fácil de operar e não exigir mão de obra constante.

Free stall x compost barn x tie stall: qual escolher

Já que o free stall não é a única opção de confinamento disponível, vale comparar rapidamente os três modelos mais comuns no Brasil:

  • Free stall: baias individuais, alta densidade, exige mais investimento inicial e manejo técnico constante
  • Compost barn: área de descanso coletiva sobre cama de compostagem, indicado para propriedades menores ou com orçamento mais limitado
  • Tie stall: vacas presas individualmente durante todo o período de confinamento, modelo cada vez menos usado no Brasil por demandar muita mão de obra

Na prática, a escolha depende do tamanho do rebanho, da disponibilidade de área, de mão de obra e do capital disponível para investir. Fazendas que já têm plantel grande e buscam ganho de escala tendem a optar pelo free stall, enquanto propriedades menores costumam se beneficiar mais do compost barn.

Free stall: da estrutura ao resultado no rebanho

Como este artigo mostrou, o free stall só entrega os resultados esperados quando a fazenda planeja cada etapa com atenção: do terreno ao telhado, do piso à cama, da ventilação à água. Isso porque cada detalhe da instalação impacta diretamente o conforto do animal e, consequentemente, a produção de leite.

Perguntas frequentes sobre o free stall

Qual é a área mínima recomendada por vaca no free stall?

De acordo com referências técnicas da Embrapa, a área de repouso recomendada gira em torno de 2,80 m² por animal, considerando o espaço da baia individual mais a área de circulação ao redor dela.

Free stall serve para qualquer tamanho de rebanho?

Não necessariamente. O sistema costuma ser recomendado para rebanhos a partir de 60 vacas em lactação, já que o investimento inicial elevado se paga melhor em fazendas com escala maior.

Qual a diferença entre free stall e compost barn?

O free stall usa baias individuais para descanso, enquanto o compost barn oferece uma área coletiva sobre cama de compostagem. Em geral, o compost barn exige menos investimento inicial e costuma ser indicado para propriedades menores.

Qual o melhor material para a cama do free stall?

Depende do orçamento e do manejo disponível. Areia costuma ser a preferida das vacas pelo conforto, mas exige mais cuidado na remoção de dejetos. Já materiais orgânicos, como casca de café e palha, pedem mais atenção à limpeza para evitar proliferação de microrganismos.

Qual a orientação ideal para construir o galpão de free stall?

A orientação leste-oeste é a mais recomendada, já que evita a incidência direta do sol sobre os animais ao longo do dia.

Ventilação e aspersão são obrigatórias no free stall?

Não são obrigatórias, mas fazem grande diferença em regiões de clima quente. Como as vacas leiteiras têm metabolismo intenso, o estresse térmico reduz consumo de matéria seca e produção de leite, o que torna o investimento em climatização quase sempre vantajoso.

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