A produção de carne bovina a partir de rebanhos leiteiros tem ganhado cada vez mais espaço em países como os Estados Unidos. Nesse cenário, o conceito de beef-on-dairy, que consiste no cruzamento de vacas leiteiras com raças de corte, tornou-se uma estratégia amplamente adotada para aumentar a eficiência e a rentabilidade dos sistemas produtivos.
Inicialmente, esse modelo era baseado na terminação de animais de raças leiteiras puras, como a Holandesa. Com o passar dos anos, evoluiu para a utilização de cruzamentos entre raças leiteiras e de corte, especialmente Angus e Charolês, agregando mais valor aos animais e melhorando as características das carcaças produzidas.
Além de aproveitar a eficiência já existente na cadeia leiteira, o sistema permite ampliar o uso dos recursos disponíveis e criar novas oportunidades de receita para os produtores. No Brasil, o modelo ainda apresenta grande potencial de expansão, especialmente por sua capacidade de promover diversificação produtiva, sustentabilidade e maior competitividade no mercado de carne bovina.

Casos de sucesso já mostram o potencial do modelo
Embora ainda seja considerado uma oportunidade em desenvolvimento no país, o beef-on-dairy já conta com iniciativas consolidadas nas regiões Sul e Sudeste.
Um dos exemplos mais conhecidos está em Carambeí (PR), onde a Cooperativa Frísia iniciou, em 2018, um projeto inspirado em modelos adotados por produtores da região de Torreón, no norte do México.
Ao longo dos anos, o sistema foi adaptado às condições locais em parceria com especialistas do setor, alcançando resultados expressivos tanto do ponto de vista zootécnico quanto financeiro. Além disso, o projeto passou a fornecer carne de alta qualidade ao mercado consumidor, atraindo parceiros estratégicos voltados ao segmento premium, como a Cooperaliança.
Recentemente, a Cooperaliança conquistou a certificação para carne proveniente do cruzamento entre raças leiteiras e Angus, concedida pela Associação Brasileira de Angus. A certificação fortalece a valorização do produto e amplia as oportunidades de comercialização para os produtores envolvidos.
O projeto tornou-se uma referência nacional e contribuiu para romper paradigmas relacionados à produção de carne a partir de animais de origem leiteira.
O que os Estados Unidos têm aprendido com o beef-on-dairy?
No sul da Califórnia, especialmente na região do Imperial Valley, a engorda de aproximadamente 400 mil bovinos leiteiros em confinamento impulsionou o desenvolvimento de dietas e protocolos de manejo específicos para esses animais.
Embora os confinamentos ainda utilizem animais Holandeses puros, a participação dos cruzamentos beef-on-dairy cresce continuamente. Entre os fatores que impulsionam essa mudança estão a menor disponibilidade de bezerros Holandeses e os benefícios produtivos observados nos animais cruzados.
Uma pesquisa conduzida em propriedades leiteiras da Califórnia apontou que 81% dos produtores já utilizavam sêmen de raças de corte em seus rebanhos leiteiros. A adoção da prática se intensificou a partir de 2017, impulsionando estudos sobre alimentação, manejo e desempenho desses animais.

Entre as principais dúvidas dos produtores estavam:
- Qual estratégia alimentar utilizar nos cruzados;
- Como ajustar a exigência energética dos animais;
- Quais raças de corte oferecem melhores resultados em confinamento;
- Como os cruzamentos respondem a condições climáticas desafiadoras, como as encontradas em regiões desérticas.
- Cruzamentos apresentam melhor eficiência alimentar
Pesquisas realizadas no deserto da Califórnia compararam animais Holandeses puros e cruzados Angus-Holstein. Ambos iniciaram o confinamento com aproximadamente 135 kg e permaneceram no sistema durante 328 dias.
Os resultados mostraram que os cruzados consumiram 3% menos matéria seca e apresentaram eficiência alimentar 5% superior aos Holandeses puros. Na prática, isso significa maior capacidade de converter energia em ganho produtivo.
Além disso, os animais cruzados apresentaram vantagens importantes em características de carcaça, incluindo:
- Maior peso de carcaça quente;
- Melhor rendimento;
- Maior cobertura de gordura;
- Maior área de olho de lombo;
- Melhor marmoreio.
Esses atributos tornam os cruzamentos especialmente atrativos para mercados que valorizam cortes premium.
Estudos posteriores também avaliaram cruzamentos Angus-Holstein e Charolês-Holstein. Os animais Angus-Holstein apresentaram peso vivo final 3% superior e consumo de matéria seca 5% maior, enquanto a conversão alimentar permaneceu semelhante entre os grupos.
Na avaliação das carcaças, os cruzados Angus-Holstein se destacaram pelo maior acabamento de gordura e melhores índices de marmoreio. Já os cruzados Charolês-Holstein apresentaram maior área de olho de lombo.

As oportunidades para o mercado brasileiro
Como maior exportador de carne bovina do mundo, o Brasil reúne condições favoráveis para ampliar a adoção do modelo beef-on-dairy, especialmente nas regiões Sul e Sudeste, onde a atividade leiteira possui forte presença.
A utilização de cruzamentos em rebanhos leiteiros permite que os produtores diversifiquem suas fontes de receita e aproveitem o crescimento da demanda por carnes de maior valor agregado.
Dados do CEPEA mostram que o país possui aproximadamente 15,5 milhões de matrizes leiteiras aptas à reprodução. Considerando uma taxa de desmame de 65%, com metade dos animais desmamados sendo machos, estima-se que cerca de 4,5 milhões de bezerros por ano poderiam ser incorporados a sistemas especializados de produção de carne.
Esse cenário evidencia uma oportunidade relevante para aumentar a eficiência produtiva e gerar maior valor a partir de recursos já existentes.
1. Maior valorização dos bezerros
O uso de sêmen de raças de corte em vacas leiteiras gera bezerros com maior potencial de valorização comercial.
Além de ampliar as possibilidades de venda no mercado interno, esses animais podem atender demandas de exportação e contribuir para o aumento da rentabilidade das propriedades leiteiras.
2. Crescimento da demanda por carne premium
Mercados consumidores no Brasil, Europa e Ásia apresentam demanda crescente por carnes com atributos diferenciados de qualidade.
Nesse contexto, os cruzamentos beef-on-dairy oferecem características valorizadas pelos consumidores, como maior marmoreio, melhor acabamento de gordura, maciez e sabor.
Raças britânicas, especialmente o Angus, destacam-se nesse tipo de sistema por contribuírem diretamente para a obtenção dessas características.
3. Mais eficiência e sustentabilidade
O modelo beef-on-dairy permite aproveitar a infraestrutura já existente das fazendas leiteiras para a produção de carne, aumentando a eficiência do uso dos recursos disponíveis.
Além disso, o sistema favorece uma utilização mais estratégica dos alimentos, direcionando os animais para programas produtivos com metas claras de desempenho e critérios bem definidos ao longo de todo o ciclo.
Essa organização contribui para maior eficiência produtiva e fortalece a sustentabilidade da atividade.

Pontos de atenção para a implementação do sistema
Apesar das vantagens, a adoção do beef-on-dairy exige planejamento e ajustes específicos para alcançar bons resultados.
Alguns parâmetros tradicionalmente utilizados na produção de bovinos de corte precisam ser adaptados às características dos animais oriundos de rebanhos leiteiros. Entre os fatores mais importantes estão:
- Formulação adequada das dietas, especialmente quanto aos níveis de energia e proteína;
- Utilização de aditivos que contribuam para melhor eficiência alimentar e rendimento de carcaça;
- Manejo correto durante a fase inicial de criação e aleitamento;
- Definição de objetivos produtivos alinhados ao sistema adotado.
Esses fatores influenciam diretamente o desempenho dos animais e a rentabilidade da operação.
O futuro da integração entre leite e carne no Brasil
O beef-on-dairy representa uma oportunidade relevante para a evolução da pecuária brasileira. Ao integrar de forma estratégica as cadeias de leite e carne, o sistema contribui para aumentar a eficiência produtiva, gerar novas fontes de receita e atender à crescente demanda por carne de qualidade.
Com experiências bem-sucedidas já em andamento no país e exemplos consolidados no mercado norte-americano, o modelo demonstra potencial para ampliar a competitividade do setor e fortalecer a sustentabilidade da produção pecuária.
À medida que mais produtores, cooperativas e empresas investem nessa estratégia, o Brasil se posiciona para aproveitar melhor o potencial de seus rebanhos leiteiros e expandir sua participação em mercados cada vez mais exigentes.
Perguntas frequentes sobre beef-on-dairy
Veja respostas rápidas para as principais dúvidas sobre o modelo e suas oportunidades na pecuária.
1. O que é beef-on-dairy?
Beef-on-dairy é o cruzamento de vacas leiteiras com raças de corte para produzir bezerros com maior potencial de valorização para a produção de carne.
2. Como funciona o beef-on-dairy?
O beef-on-dairy usa sêmen de raças de corte em vacas leiteiras. Os animais cruzados são direcionados a sistemas de produção de carne, com manejo e dieta ajustados ao seu desempenho.
3. Quais são as vantagens do beef-on-dairy?
As principais vantagens são maior valorização dos bezerros, diversificação da receita, melhor aproveitamento da estrutura leiteira e produção de carne com atributos valorizados pelo mercado.
4. O beef-on-dairy melhora a qualidade da carne?
Sim. Cruzamentos beef-on-dairy podem melhorar características como marmoreio, acabamento de gordura, rendimento de carcaça, maciez e sabor.
5. Por que o beef-on-dairy é uma oportunidade para o Brasil?
O Brasil tem rebanhos leiteiros expressivos, demanda por carne de maior valor agregado e potencial para incorporar milhões de bezerros por ano a sistemas especializados de produção de carne.





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